Terminou agora a grande entrevista ao Primeiro-Ministro Durão Barroso no 3º aniversário da SIC Notícias, e a sua prestação foi excelente. Durão Barroso esteve bastante à vontade durante toda a entrevista, tendo respondido com facilidade, diplomacia e elegância mesmo às questões mais difíceis, em particular as relacionadas com o apoio Português à guerra no Iraque.
Durão Barroso defendeu com brio o argumento da Realpolitik e da defesa intransigente do interesse nacional e dos nossos aliados tradicionais, e desvalorizou a questão das armas de destruição massiça, dizendo que nunca foi um motivo fundamental para o apoio aos EUA. Foi eloquente e certamente convenceu muitos, mas a pergunta essencial ficou por responder: mesmo que adoptemos a Realpolitik como valor supremo, devemos apoiar incondicionalmente aliados que nos mentem? Resta notar que a questão da não existência de armas de destruição massiça deixou de ser uma questão, para passar a ser um facto que não é contestado por ninguém.
É claro que a cartada da Realpolitik e do interesse nacional pode e deve ser contestada - levada às suas últimas consequências, conduz à lei do mais forte e ao caos nas relações internacionais. Por alguma razão as lições amargas da história recente levou a quase totalidade das nações a reconhecer a necessidade de enquadrar as relações internacionais no respeito pelo direito internacional e instituições mundiais, por imperfeitas que sejam.
Durão admitiu após uma pequena pausa a sua repulsa perante o tratamento dado aos prisioneiros de guerra mantidos em Guantanamo em flagrante violação da Convenção de Genebra, e aproveitou para se distanciar da actual administração em algumas outras questões, chegando a qualificar a atitude americana como arrogante em alguns aspectos. Em relação ao conflito entre Israel e Palestina, foi visível a sua simpatia pela causa Palestiniana - criticou claramente o muro, e as suas primeiras críticas foram dirigidas ao actual governo de Sharon.
Disse ainda que se fosse americano seria Democrata moderado ou Republicano da ala liberal (por esta ordem), mas nunca da chamada direita fundamentalista ou da direita moral. Em toda a entrevista, Durão Barroso pareceu querer mostrar que também tem uma costela esquerdista, talvez para se colocar como um homem do centro, sensível aos diversos valores. Terá sido por mero acaso que se apresentou na entrevista usando uma gravata vermelha?
Recent Comments